19 Outubro 2007

Insegurança

O homem barbeado pensava no próximo almoço, na presença de outros homens mais barbeados.

Entretanto não havia o que temer: se dificuldades houvesse, olharia para a eterna barba por fazer de seu segurança.

Isso lhe daria a tranqüilidade de sempre.

24 Setembro 2007

Jardim da infância

para Lissa

Pela vidraça o personagem barbeado olhava a roda de homens engravatados que tomavam seus sorvetes em casquinhas, no pátio, ao sol.

O sol a derreter mostrou que, quando tomam sorvetes, todos os homens, barbudos ou engravatados, são sempre como crianças.

10 Maio 2007

Sugestões

O homem barbeado aguardava o almoço lendo a bula de um remédio há pouco tomado. Ao saber das reações adversas, começou pouco a pouco a senti-las: náusea, moleza etc.

Só não sentiu “distúrbios no sistema extrapiramidal”, porque não sabia o que significava.

13 Abril 2007

Errata

O menino ingênuo, adoentado, lia livros agradáveis que ajudavam a passar o tempo.

A certa altura, em uma das partes mais bela da história, espirrou sem querer sobre a página aberta.

Mesmo limpando, o muco não se desprendeu totalmente da página, maculando com a presença de vida o mundo idealizado infantil.

06 Abril 2007

O atraso de Lumière

O filósofo foi condenado à morte e antes que a guilhotina arrancasse-lhe a cabeça, lembrou-se de tudo que vivera.
(Só não diremos que na sua cabeça passou um filme, pois ainda o cinema não havia sido inventado.)

30 Março 2007

Newtoniana

O menino ingênuo imaginou que tinha liberdade para dizer o que pensava.

Disseram-lhe, então, umas liberdades.

23 Março 2007

Duelo

O primeiro homem contava aos da mesa os sofrimentos por que passara na infância. Mas o segundo homem contara que sofrera mais.

O primeiro homem contava que havia perdido a guerra e tinha recebido cinco tiros. Mas o segundo homem também perdera a guerra e revivera após dez tiros.

O primeiro homem contava que todas as noites tinha pesadelos e pensava em dar cabo da vida. Mas o segundo homem também tinha pesadelos e já estivera com a arma próxima da cabeça por inúmeras vezes.

Foi então que o primeiro homem retirou uma arma do coldre. O espanto foi de todos.

O segundo homem revelava medo nos olhos. Mas o primeiro homem deu um tiro na própria cabeça.

Finalmente vencera.