28 Julho 2006

Sem título

O escritor ponderava sobre pessoas que dizem ter visto o frio do poema sem nunca terem cheirado o livro.

O título do texto já é um penhor de conhecimento, não sendo mais necessário, muitas vezes, qualquer resgate da obra. Os que não viajaram com Dante, nada podem dizer contra a certeza de um nome.

Se o falso leitor diz “Palimpsestos da primavera” nos faz refletir sobre a condição existencial humana, quem duvidará?

O poeta então resolveu escrever palavras sem título: apenas pedaços de texto, soltos na página de verão. Como o mesmo se aplicasse aos livros, também pensava em publicá-los apenas com a perene indicação: “sem título”.

Acontece que, para a maioria dos leitores, a natureza é inversa: o floreado do estilo sorri menos que o folhear das páginas. E o escritor, assim esquecido, nunca viu o outono de sua literatura.

Mas assim se constroem as bibliotecas.

1 comentários:

Princess disse...

Não escrever nada, é uma estagio intermediario para um novo conhecimento!