Um grande fantasma é a suposta diferença entre “ter de” e “ter que”. Lenda moderna que assusta muita gente, diz ela que “ter de” é uma expressão usada quando não há escolha (sic!!!), ou seja, o fato é implacável: “O saci tinha de chegar às 22 h.” Traduzindo: é fundamental que o saci chegue naquele horário. Não há escolhas.
Já na outra versão, dizer-se que “A mula-sem-cabeça tem que chegar às 22 h.”, significa falar sobre a possibilidade de “a mula” chegar ou não naquele horário (?!), ou seja, que isso não é inexorável. Estranho não? Também acho, caro amigo. Se não fosse fundamental chegar às 22 h, eu não diria “tenho de” ou “tenho que chegar”, diria simplesmente “talvez chegue”, concorda? E as referências nos exemplos também não foram à toa. “Saci” é metáfora de uma gramática capenga, “mula” é mula, dispensando maiores divagações.
“E os compêndios? O que nos contam?”, me pergunta um aluno, fã da novidade. Como lenda que é, a suposta diferença semântica, isto é, de significado, entre “ter de” e “ter que” não encontra apoio em nenhum livro. A única diferença entre elas apontada foi feita no aspecto “culto”, por gramáticos mais conservadores, dentre os quais Napoleão Mendes de Almeida, que dizem ser “ter de” forma mais erudita. Apenas isso. Nada de diferença semântica.
Em recente dissertação de mestrado da UFBa (2001), o assunto foi abordado à exaustão pelo professor Alcides Pereira. Pesquisando mais de dez gramáticas — das mais clássicas às mais flexíveis —, depoimentos de diversas classes sociais, textos jornalísticos, ele chegou a uma conclusão taxativa: ambas as expressões são equivalentes no português do Brasil.
É isso, gente. Peço desculpas se feri a crença de alguém, mas sabemos que Papai Noel não existe. E é crueldade deixar-nos com ilusões. Eu tinha que dizer ou de dizer a verdade? Você escolhe. Como diria o baiano Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz / Tenho que encontrar a paz”...
E por falar em Deus, a caçada continua no próximo módulo. Lá você entenderá o porquê da referência a Deus. E por sinal, adeus.
Deco Duarte
Professor do Curso e Colégio Gregor Mendel
PARA SABER MAIS:
PEREIRA, Alcides Cabral. Ter de / ter que e infinitivo para expressar necessidade / obrigação: um caso de variação do português do Brasil. Salvador: UFBa / Instituto de Letras (dissertação mestrado), 2001, 96 p. (disponível para consulta na Biblioteca Central da UFBa, PAF-Ondina)
ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da língua portuguesa. 33ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996, p. 370. Traz uma página de explicações acerca do uso da expressão analisada.
*Texto publicado no módulo 1, do Gregor Mendel.


1 comentários:
hmmm... Sobre o "tem de" ser uma forma mais culta meu professor comentou nesse ano. Mas ele também falou que era uma forma mais reforçada, e o "tem que", mais suavizada.
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