31 Março 2006

Contradições no dicionário

Um pobre-diabo também é filho de Deus.

24 Março 2006

Condicionamento

No primeiro ano, a esposa, diante do espelho, dizia ao marido que estava gorda.
No terceiro ano, a esposa continuava dizendo-se gorda diante do espelho.
No quinto ano, a esposa ainda se dizia gorda diante do espelho.
No sétimo ano, o marido abandonou-a por achá-la gorda.

17 Março 2006

Admirável educação nova

Desde criança me acostumei a ver filmes de ficção científica, nos quais o futuro seria uma época de caos, com a supremacia das máquinas e a conseqüente subjugação humana. “Blade Runner”, de Ridley Scott, “Inteligência artificial”, de Spielberg e Kubrick, “Matrix”, dos irmãos Wachowski e “Os doze macacos”, com Bruce Willis são alguns títulos que ilustram essa visão distópica — o contrário da utopia de paz e fraternidade para todos — do futuro. Tinha medo do “Big Brother" do Orwell sempre a me olhar e a investigar todos os meus passos. Meu futuro já chegou e, pelo visto, não vou ver algo tão caótico. Nem tão católico também.

Apesar de as coisas aparentarem serem menos agressivas em relação ao previsto por Inácio de Loyola Brandão em seu livro “Não verás país nenhum” — não há desertos de garrafas “pet” circundando minha cidade nem a água dos rios secou — o nosso oceano não é de todo pacífico. Assistimos à gradual substituição da mão-de-obra humana pela robotizada. Profissões que dispensam o raciocínio são as primeiras a sofrer na pele as queimaduras do frio metal. Não se precisa de funcionários que apertem parafusos, se máquinas podem fazê-lo e ainda sem os achaques da humanidade.

Mas eis que a fome tecnológica não fica apenas nas “subprofissões”, as da humana força bruta. Atividades antes consideradas “intelectuais” também são atacadas pelas máquinas e os frágeis humanos colocados de lado. O Deep Blue venceu Kasparov há tempos... A educação, área por si mesma prioritária em uma sociedade, assiste, a cada dia, a uma maré crescente de novas tecnologias a serem usadas em sala de aula, para entretenimento dos seus pupilos. Em época de internetes e de tantas e veloxes imagens, o professor do quadro e do giz, com sua voz lenta e modorrenta teria seus dias contados?

Os efeitos dessa nova ideologia já são vistos. Nessa época do ano, surgem publicidades mil de escolas e cursos pré-vestibulares. Uma, no entanto, me chama mais a atenção. A começar pelos locais em que aparece: locadoras de vídeo, portas de cinema, aeroporto e embalagens de abadás (?). Somente a análise dos veículos escolhidos para a divulgação da imagem da escola já seria interessante. O que faz a propaganda de um curso em sacos plásticos de uma locadora? Ou na porta de um cinema? Não seria mais adequada a colocação de tal publicidade na sacolinha de livrarias ou em portas de teatro? Ou no mínimo em portas de salas alternativas, mais dadas ao “cinema cult”, “ao cinema-arte”?

Alguém, entretanto, dirá que nesses locais o público-alvo (jovens) não seria atingido. A questão não é tão simples como parece. A colocação de propagandas de escola ou cursinhos em veículos que originariamente não são do mesmo campo de atuação reflete o atual estado de uma educação que não prioriza mais o material humano de que dispõe, mas que valoriza as novas tecnologias que invadem a sala de aula. Em tempos de guerra do capitalismo por novos mercados, o esquecimento do valor real das coisas é fato, o que era sólido se desmancha no ar e resta apenas a vontade de atingir novos mercados.

É claro que o espaço do conhecimento não deve ser fechado a novas idéias. As tecnologias são, sim, bem-vindas no processo de aprendizagem. Uma determinada aula que utilize um vídeo para falar da Roma antiga ganha um atrativo a mais. Sem dúvidas. No entanto, esse não é o fim da educação. Gerar atrativos a mais. O processo do conhecimento é árduo e muitas vezes difícil. Falar de Roma antiga, ainda que não se exiba nada sobre a cidade de Nero, também tem suas virtudes. Se assim não fosse, os livros estariam extintos com a invenção do cinema. A fantasia ainda conta.

Nessa nova era, assiste-se a uma gradual desvalorização do professor, que, como principal elemento de transmissão do conhecimento no espaço da escola, não tem a sua publicidade feita. Sou professor e analiso como me sentiria desvalorizado, sabendo que todos aqueles alunos que lá foram à minha escola escolheram o quadro brilhante ou a lousa mágica e não mais — como antes — o material humano que lá dedica parte de sua vida na transmissão de experiências e de conhecimento.

Com o salário reduzido, com profissionais “mais caros” e, conseqüentemente, mais graduados sendo colocados de escanteio, a admirável educação nova agregou muitos deslumbrados à sua filosofia. O professor, massacrado por um sistema que não reconhece seu valor, se vê no beco sem saída de aceitar um valor baixo por seu trabalho. O mais importante não é ele. É a máquina, a lousa mágica, o canhão de laser que cega os índios ao verem as caravelas chegar. O professor não aparece na foto, não aparece na página da internet da escola. O professor é um anônimo, um ser das sombras. Operador de máquinas que dão aulas digitais. Não tem seu nome nas sacolas das locadoras ou em portas de cinema... Claro, nessa nova educação, ele não é estrela. É o figurante, o anônimo.

Nesses novos tempos de educação, imagino que as escolas não mais tragam no nome homenagens a grandes mestres, ou a grandes pensadores, escritores, cientistas ou pintores. Provavelmente terão no nome siglas, que ninguém sabe o que significa. “TRS-5, sua escola do futuro”, eis aí um bom slogan futurista de educação.

Espero não ver o futuro tirânico de George Orwell, do 1984, a curto prazo. Dedico minha vida à pesquisa, à descoberta de novas idéias e aperfeiçoamento de técnicas de ensino, à leitura e à busca do conhecimento. A tecnologia em sala de aula — coisa que uso, e muito — é um imperativo, mas não a única opção, o caminho verdadeiro. Educação não é Discovery Channel ou National Geographic. Educação é humanidade, é troca de experiências, é sentimento, é paixão, é olho no olho. A escola — já diz o ditado — é a nossa segunda casa. E não um segundo Multiplex.

P.S.: O cinema Art, instalado no Politeama, de há muito faliu.

09 Março 2006

Pretérito imperfeito

Eu ainda me lembrava dela.

03 Março 2006

Saudade

Na tarde chuvosa, os limpadores de pára-brisas continuavam dizendo que não... que não... que não.