25 Novembro 2006

Fotografias do presente

Até bem pouco tempo atrás, as fotografias serviam para mostrar o passado. De cabelos desgrenhados ou com a barba ainda por nascer, as fotos mostravam sempre um ontem. Para chegar ao álbum, o negativo percorria um longo caminho: comprava-se um filme, batia-se a foto, esperava-se o filme terminar, depois uma revelação, que nem sempre agradava. Era uma piscadela inapropriada que tornava o rosto deformado, um pedaço do corpo cortado pela inépcia do fotógrafo, problemas com a luminosidade que acabavam por deixar todos no escuro. Enfim, sempre havia algo que poderia atrapalhar a plenitude do momento. Uma foto boa era uma pedra preciosa. Como, aliás, os bons momentos.

As fotografias do presente não são mais assim. Não ouso chamá-las “retratos”. Pode-se, segundos após o dedo apertar o obturador, perceber se erro houve, se algo andou fora do previsto e repetir a cena até que finalmente ela reproduza a perfeição desejada, mesmo que seja do ângulo mais difícil de se imaginar. As fotos são estudos de perfeição. Principalmente quando somos fotógrafos de nós mesmos. Perdeu-se a espontaneidade.

Dia desses, alguém fotografava com uma máquina das que ainda usam filme. Tomei um susto ao flagrar o equipamento na mão do sorridente rapaz. Era o mesmo espanto ao ver uma máquina de escrever ou alguém alugando uma fita VHS. O artefato primitivo dava a seu comportamento ares poéticos. Tirava apenas uma foto da paisagem desejada e dava-se por satisfeito. Era definitivo. Era o instante, com seus acertos ou com seus erros. Só depois poderia avaliar. Só depois da noite dormida é que se sabe se a tarde realmente foi límpida ou se não foram a lua ou o conhaque que deram a poesia. Toda poesia é passado.

O fotógrafo do presente tornou-se um guloso, um consumista da paisagem: uma só não basta, há sempre que se comparar. Das várias paisagens, leva-se a melhor e não se precisa ter medo de rasgar as fotos que não ficaram boas ou não são mais desejadas. Não há remorso em se rasgar as fotos do presente. Não mais o esfarelar do papel entre os dedos. Da mesma forma que, ao clicar no aparelho eletrônico, cria-se algo, apaga-se rapidamente qualquer vestígio de erro. Não há negativos nas fotos do presente.

Não que as fotografias tenham perdido a função de imortalizar momentos. Todas acabam sendo resultado de um passado, como nós, aliás, sempre somos. Mas a fotografia digital deixou de ser um velho álbum empoeirado. Não há mais um caminho a percorrer. As cenas ainda estão a acontecer, mas já sabemos que todas serão perfeitas. Apagaremos as outras. É só tentar várias vezes. Como num estúdio fotográfico. Mas, nessas inúmeras tentativas, algo desaparece: ou um pedaço de vida, ou os erros cometidos, ou até quem sabe, nós mesmos.

20 Novembro 2006

Triste Bahia

Há poucos dias, andei mexendo em papéis velhos, coisas antigas, arrumando gavetas. Achei preciosidades, não quanto ao valor estético, mas sim ao histórico. E já que a época é de vestibular, aqui coloco a redação que fiz quando prestei vestibular para Letras, na UFBa, seguindo o tema: "Bahia, Bahia, que lugar é este?", desencavada destes papéis velhos:


Triste Bahia

A despeito do que se possa pensar da leitura desavisada de folhetos turísticos, não é a Bahia a “terra da felicidade” como já se apregoou aos quatro ventos. Não é só belezas naturais. Não só mulatas. Não só Carnaval. Como, aliás, todo o Brasil não o é. É ela reflexo dessa mesma realidade brasileira. E, da mesma forma que o país, o Estado e o nosso estado são contrastantes.

Mas, e a Bahia do cartão-postal? a Bahia ecumênica dos livros de Jorge Amado? Também há, por certo. No entanto, por trás do sorriso da baiana, existe a cárie da sua pobreza. Façam silêncio e vejam essa flor: por entre as cordas que separam a alegria dos foliões, eis que surge ele, com a fantasia cotidiana, o catador de latas. Catando o resto de uma alegria que nunca teve e terá. Por trás de toda beleza da cultura afro existe a impossibilidade de esses mesmos negros se orgulharem da sua cultura.

De nada adianta rotular a Bahia como “Terra festeira, de gente bonita”. Isso é falso. Dona Flor hoje teria que ser prostituta na Montanha. Não se deve falar apenas dessa Bahia. A não ser que se queira falsear. A não ser que se queira mascarar uma realidade que privilegia a poucos. Poucos que manipulam a maioria incutindo-lhes essas idéias de felicidade coletiva. Esse pão-e-circo baiano ainda funciona a cada Lavagem do Bonfim, a cada Iemanjá. Santos e orixás se misturam e ajudam a perpetuar a imagem de um povo alegre.

“Triste Bahia”? Sim, ainda a triste Bahia da época de Gregório. Explorada. Injusta, vendida e bastarda. Com belezas, por certo. Mas que não devem encobrir a feiúra de sua população. Povo na maioria pobre, sem acesso à cultura. Povo que volta suado pra casa a cada dia de trabalho em ônibus apertados e velhos, num engarrafamento de sonhos e frustrações. “Eis aqui a Cidade da Bahia”.

03 Novembro 2006

Dissimulação

No restaurante, o homem barbeado solidamente ocupava a mesa. Pediu entradas e vinhos e filés e digestivos.

Conversava, seguro, firme, impávido, parcimonioso, diplomático.

A conta foi alta, mas o homem entregou com desdém notas ainda novas.

Na saída, passou por uma gamela cheia de caramelos. O homem barbeado encheu as mãos e povoou os bolsos.

Não foi possível resistir durante muito tempo.