Até bem pouco tempo atrás, as fotografias serviam para mostrar o passado. De cabelos desgrenhados ou com a barba ainda por nascer, as fotos mostravam sempre um ontem. Para chegar ao álbum, o negativo percorria um longo caminho: comprava-se um filme, batia-se a foto, esperava-se o filme terminar, depois uma revelação, que nem sempre agradava. Era uma piscadela inapropriada que tornava o rosto deformado, um pedaço do corpo cortado pela inépcia do fotógrafo, problemas com a luminosidade que acabavam por deixar todos no escuro. Enfim, sempre havia algo que poderia atrapalhar a plenitude do momento. Uma foto boa era uma pedra preciosa. Como, aliás, os bons momentos.
As fotografias do presente não são mais assim. Não ouso chamá-las “retratos”. Pode-se, segundos após o dedo apertar o obturador, perceber se erro houve, se algo andou fora do previsto e repetir a cena até que finalmente ela reproduza a perfeição desejada, mesmo que seja do ângulo mais difícil de se imaginar. As fotos são estudos de perfeição. Principalmente quando somos fotógrafos de nós mesmos. Perdeu-se a espontaneidade.
Dia desses, alguém fotografava com uma máquina das que ainda usam filme. Tomei um susto ao flagrar o equipamento na mão do sorridente rapaz. Era o mesmo espanto ao ver uma máquina de escrever ou alguém alugando uma fita VHS. O artefato primitivo dava a seu comportamento ares poéticos. Tirava apenas uma foto da paisagem desejada e dava-se por satisfeito. Era definitivo. Era o instante, com seus acertos ou com seus erros. Só depois poderia avaliar. Só depois da noite dormida é que se sabe se a tarde realmente foi límpida ou se não foram a lua ou o conhaque que deram a poesia. Toda poesia é passado.
O fotógrafo do presente tornou-se um guloso, um consumista da paisagem: uma só não basta, há sempre que se comparar. Das várias paisagens, leva-se a melhor e não se precisa ter medo de rasgar as fotos que não ficaram boas ou não são mais desejadas. Não há remorso em se rasgar as fotos do presente. Não mais o esfarelar do papel entre os dedos. Da mesma forma que, ao clicar no aparelho eletrônico, cria-se algo, apaga-se rapidamente qualquer vestígio de erro. Não há negativos nas fotos do presente.
Não que as fotografias tenham perdido a função de imortalizar momentos. Todas acabam sendo resultado de um passado, como nós, aliás, sempre somos. Mas a fotografia digital deixou de ser um velho álbum empoeirado. Não há mais um caminho a percorrer. As cenas ainda estão a acontecer, mas já sabemos que todas serão perfeitas. Apagaremos as outras. É só tentar várias vezes. Como num estúdio fotográfico. Mas, nessas inúmeras tentativas, algo desaparece: ou um pedaço de vida, ou os erros cometidos, ou até quem sabe, nós mesmos.
As fotografias do presente não são mais assim. Não ouso chamá-las “retratos”. Pode-se, segundos após o dedo apertar o obturador, perceber se erro houve, se algo andou fora do previsto e repetir a cena até que finalmente ela reproduza a perfeição desejada, mesmo que seja do ângulo mais difícil de se imaginar. As fotos são estudos de perfeição. Principalmente quando somos fotógrafos de nós mesmos. Perdeu-se a espontaneidade.
Dia desses, alguém fotografava com uma máquina das que ainda usam filme. Tomei um susto ao flagrar o equipamento na mão do sorridente rapaz. Era o mesmo espanto ao ver uma máquina de escrever ou alguém alugando uma fita VHS. O artefato primitivo dava a seu comportamento ares poéticos. Tirava apenas uma foto da paisagem desejada e dava-se por satisfeito. Era definitivo. Era o instante, com seus acertos ou com seus erros. Só depois poderia avaliar. Só depois da noite dormida é que se sabe se a tarde realmente foi límpida ou se não foram a lua ou o conhaque que deram a poesia. Toda poesia é passado.
O fotógrafo do presente tornou-se um guloso, um consumista da paisagem: uma só não basta, há sempre que se comparar. Das várias paisagens, leva-se a melhor e não se precisa ter medo de rasgar as fotos que não ficaram boas ou não são mais desejadas. Não há remorso em se rasgar as fotos do presente. Não mais o esfarelar do papel entre os dedos. Da mesma forma que, ao clicar no aparelho eletrônico, cria-se algo, apaga-se rapidamente qualquer vestígio de erro. Não há negativos nas fotos do presente.
Não que as fotografias tenham perdido a função de imortalizar momentos. Todas acabam sendo resultado de um passado, como nós, aliás, sempre somos. Mas a fotografia digital deixou de ser um velho álbum empoeirado. Não há mais um caminho a percorrer. As cenas ainda estão a acontecer, mas já sabemos que todas serão perfeitas. Apagaremos as outras. É só tentar várias vezes. Como num estúdio fotográfico. Mas, nessas inúmeras tentativas, algo desaparece: ou um pedaço de vida, ou os erros cometidos, ou até quem sabe, nós mesmos.

