
“Uma foto vale mais que mil palavras”, “A vida é feita de surpresas”, “Não vale a pena insistir no óbvio”, “Nada ocorre por acaso” etc. etc. são clichês bastante conhecidos, facilmente comprováveis em qualquer rua da vida.
Os lugares-comuns, ainda que sabidos e ressabidos, não impedem, entretanto, um olhar de espanto nem um riso bobo quando acontecem. Ficamos como se nunca soubéssemos da existência de tais verdades que, de tão claras, nem parecem mais verdades. Deveria existir um outro nome para isso. Verdade é quando esclarece; mentira quando disfarça. Mas o que já é conhecido por todos não é mais verdade. Está além disso.
Pois bem, após assistir ao filme “O ilusionista”, cheio de truques e ilusões na cabeça, fui comer um sanduíche. Nada mais banal. Ao descer do carro, eis a vitrine à minha frente. Uma distração minha e o momento estaria perdido. Uma escolha de outro estabelecimento e o momento estaria perdido. Um sono mais pesado e o momento estaria perdido.
Apesar de ser uma das destinações mais comuns para blogs e afins, nunca foi minha intenção ter esse espaço para publicação de fotos. Nada mais banal. Seria usar o espaço como lugar-comum. Nada mais normal. Muito menos fotógrafo sou das paisagens por onde descubro a vida. Mas a inusitada conjunção entre o livro de Ali Kamel (“Não somos racistas”) e o de Miguel Sousa Tavares (“Equador”) pedia uma foto. Já que tudo estava tão óbvio, tinha que ser óbvio também. "A vida é uma caixinha de supresas".
À minha frente, todos os lugares-comuns brilhavam, como luminosos em rodovias desertas. Nas mãos, um truque do destino: "Equador", "Não somos racistas". Eis então a união tão óbvia de idéias, mas tão difícil de perceber por alguns. E pela 41ª vez usei meu celular para tirar uma foto. Ficará de lembrança, como memória para o ano de 2006. "Culpa do destino".
Foto: Video Hobby, Pituba.